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LEVEZA, TERAPIA HORMONAL E SANGUE NOS OLHOS Eu tô leve... tão leve que fica até chato escrever. Que dor eu vou destilar aqui? Que textão eu vou postar agora? Resistir como trans* é difícil, pessoal. É um exercício diário de autoafirmação e rigor com pessoas e lugares a que fico exposta. Mas... quer saber uma coisa? Eu não escolheria outra vida! (se gênero fosse uma escolha, claro). Eu sempre tive uma admiração especial por mulheres, a começar pela minha mãe e irmã, e saber que eu também posso me afirmar mulher é um sonho que vai se realizando pra mim. Eu tinha um grande potencial no meu ser que tava obscurecido pelos limitados contornos da masculinidade. Eu vinha sendo menos eu, quando poderia ser mais, quando poderia ser luz! Aliada a essa serenidade mental, comecei a terapia hormonal, que deve me dar traços e aspectos de mulher cis. Mas não se enganem: minha intenção não é me fingir de cis. Eu tenho orgulho de ser mulher travesti! Só que não posso negar que sou um ser histórico e que viver em um mundo cisnormativo me fez absorver (inconscientemente) certos referenciais de imagem. Também voltei a estudar insanamente. Estou com sangue nos olhos para o concurso do Céunado Federal e confesso que, se eu passasse, até desistiria de virar juíza rs. Ah... o salário é bão, teria um corpinho trans passeando pelo Congresso Nacional, iria começar logo o mestrado que quero fazer e ainda poderia advogar pro bono na área privada para associações ligadas a direitos humanos! É um sonho que tô buscando com vontade, mas, se não der certo, a gente segue o plano A mesmo rs. Um beijo! *:


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A LEVEZA QUE ACOMPANHA A CONCLUSÃO DE QUE EU NÃO PRECISO ME EXPLICAR Algumas pessoas que me conhecem dizem que eu tenho uma responsabilidade, que é a de explicar pessoas trans* pra elas. Preciso colocar alguns pontos nos “is” aqui, pessoal: eu não represento as pessoas trans*. Venho de um recorte social privilegiado e a minha realidade está longe de ser a realidade trans*. A única voz que represento, e com muita dificuldade, é a minha própria. Por vezes utilizei o “nós” apenas como forma de empoderamento da minha fala, quando na verdade era apenas o “eu”. Mas, contando da minha experiência, posso dizer que o que essa aventura interior tem me revelado é justamente que a questão trans*, do ponto de vista psicológico, não é tão diferente das outras questões, das outras dores. Essa conclusão me fez deletar todos meus posts em que utilizava a expressão “disforia”, porque quero livrar minha fala de qualquer conotação patologizante. Percebi que, sim, eu sou um pouco louca, mas a loucura é parte de todxs nós. Para me entender de verdade, você precisaria se entender em um nível profundo que talvez não esteja preparadx. Você se daria conta de que os teus desejos muitas vezes vão de encontro àquilo que mais rejeita, nega, despreza. A psique humana é uma lombra, pessoal. Essa aparente ordem do mundo e de si decorre de uma construção da linguagem, mas a real é que a gente é ordem e desordem ao mesmo tempo. É loucura e sanidade. E tuas questões muitas vezes vão parecer ilógicas, irracionais. Quando você se der conta disso e quiser tomar um chá, me avise, que daí eu acho que estarei pronta para compartilhar e talvez conseguir te explicar a minha onda.


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O SALTO CADA VEZ MAIS ALTO E O BATOM CADA VEZ MAIS VERMELHO Oi, queridxs. Estava aqui revendo umas fotinhas e encontrei essa, que me fez ter reflexões sobre subjetividades trans*, que eu gostaria de compartilhar. Estou me transformando, pessoal. Não falo apenas do meu corpo. A cada dia que passa, sinto que sou uma pessoa diferente da do dia anterior. Nessa fota, eu estou com um salto 13 e um batom da cor do pecado. Hoje percebo que minha necessidade de expressão por marcadores esteriotipados de gênero decorria de um certo desconforto com a minha imagem. Desconforto que nada tem de patológico, sendo resultado da introjeção de pressões, censuras e referenciais de imagem a que me submeti durante essa vida loca. Hoje sinto menos necessidade de passar um batom toda vez que vou sair na rua ou ter que me montar toda para encontrar amigxs. Sinto que essa necessidade vai diminuir ainda mais quando eu tiver resultados com a th e demais intervenções que desejo fazer. Vou compreendendo a minha subjetividade com o passar do tempo. Entendendo porque minas lésbicas me atraiam tanto (rs) e percebendo que eu não sou o tipo princesinha, mas uma guria trans com uma performance meio boy ou (utilizando uma expressão que não curto) meio lésbica butch. Achei interessante comentar minhas percepções, pois para mim vai ficando claro como as subjetividades trans* são de infinitas possibilidades. Isso porque as transgeneridades decorrem de algo que é muito simples: ser quem se é.


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ADULTOS NÃO SÃO REAIS Não acho que adultos em geral sejam pessoas reais. Conheço alguns adultos reais, mas a maior parte tá voando na vida. Acompanha minhas lombra. A maior parte dos adultos vive a partir de um referencial: a narrativa ficcional que eles têm sobre a própria vida. Poderia sofisticar esse debate, mas eu quero dar um exemplo que esculhambe o teu feed: os homens héteros têm um recalque relacionado ao cu porque na expressão "hétero" é vedada qualquer coisa envolvendo cu. A narrativa é ficcional, porque o fato é que a próstata é o ponto g dos macho. Agora vou além: não apenas com o cu. Essa narrativa molda e censura seu comportamento, seus desejos... a sua criança interior. As expectativas sobre si compõem essa narrativa. Mas sabe quem não está nem aí para essa narrativa ficcional? A tua dor, as tuas questões.  As tuas questões causam essa dor que você não sabe nomear. A tua dor (seja ela qual for) decorre de uma narrativa ficcional da tua própria vida que ignora as tuas questões. Você cria uma consciência virtual baseada numa linguagem aparentemente coerente, na qual as tuas nóias não existem. O mais difícil pra mim foi aceitar que eu sou tão normal quanto vocês. Aceitar que tenho meus limites e que não estou acima das minhas questões. E pra superar a dor, precisei me desprender de qualquer sentença, me desamarrar de qualquer censura ou expectativa e ser aquela criança lá que adorava dançar loucamente, era extrovertida e tortinha. Adultos não têm nada a ensinar a crianças... é justamente o contrário!


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MINHA LEITURA DA MÚSICA “VOCÊ NÃO EXISTE” DE POTYGUARA BARDO Primeiramente, queria dizer que estou apaixonada por   @potyguarabardo.   Foi surra de replay e, depois de ouvir 32x o álbum Simulacre (2019), decidi compartilhar minha leitura, como pessoa trans*, de uma das melhores músicas do álbum chamada “Você não existe”, porque identificação é pouco pra dizer o que sinto por essa letra que eu mal conheço, mas já considero pacas. Não é à toa essa escolha: a letra consegue passear por filosofia da linguagem e teorização de identidades de gênero com muito louvor. O refrão é nessa pegada: “Você não existe. E eu também não. Tudo que tem nessa vida é fruto da imaginação. A realidade surge na nossa ligação. Suas ideias emanam a luz de toda a criação”. Pra mim, esses versos tratam de como nossas identidades não existem de forma ontológica, ou seja, em momento anterior às nossas ações. A gente (o “eu”) não existe antes do fazer: não haveria uma substância ou essência a ser revelada, mas essa aparência de substância é justamente formada a partir de uma repetição estilizada de atos. E a “realidade” (o que entendemos por realidade) é percebida na nossa relação com a linguagem, que se forma pela interação com o outro. E linguagem não é outra coisa senão uma criação! Em uma palavra: as identidades, longe de serem inatas/naturais, são construções discursivas. A letra segue causando: “Todo movimento surge no inconsciente. Se engana o que acredita controlar a própria mente”. Aqui a identificação é sinistra. Depois que me descobri Luna, ficou claro para mim como a gente consegue desenvolver consciências virtuais da nossa realidade. Aprendemos esse aparato linguístico hegemônico e tentamos nos moldar da melhor forma possível, mas o inconsciente tá se cagando para essas regras. O inconsciente martela com impulsos transgressores e isso a gente é incapaz de controlar. Na última estrofe antes de repetir o refrão, até parece que   @potyguarabardo   fala comigo (hahah): “Abrace a minha voz e faça dela sua. As falas que eu canto são tão minhas quanto são da LUA”. Aaahh... simplesmente apaixonei! Potyguara Bardo dá uma “sarrada holística” nos tímpanos mais sensíveis!


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POR QUE É IMPORTANTE FALAR DE BRANQUITUDE, HETEROSSEXUALIDADE E CISGENERIDADE: O ESQUEMA OPOSICIONAL DAS LUTAS SOCIAIS. “A outra é preta, é gay, é travesti, mas eu sou só uma pessoa mesmo”: vocês já flertaram com esse tipo de ideia? Vocês já reconheceram raça, orientação sexual e identidade de gênero no outro sem perceber em si uma raça, uma orientação sexual e uma identidade de gênero próprias? É louco pensar como prevalecem ideias universalizantes de pessoa humana que normalmente vêm de um lugar bastante localizado: do homem cis, branco e heterossexual (não esqueço da força simbólica que as ideias dominantes exercem inclusive sobre corpos dominados). Por discurso universalizante, me refiro àquelas sustentações de igualdade das pessoas e de uma razão geral e abstrata que poderia ser alcançada por qualquer humano. Cuidado! Essa razão kantiana, universal e abstrata apaga as diferenças e esconde por trás de sofisticadas construções uma razão que é bastante própria, a do macho alfa dominante. Esse funcionamento, às vezes escrachado, às vezes bastante velado, da linguagem colonial é percebido de forma mais clara por quem ocupa espaços estigmatizados: os corpos pretos, trans*, viados, de mulheres, indígenas (etc.) conseguem alcançar o funcionamento dessa lógica perversa de forma mais fácil. É por isso que surge, no berço dos movimentos sociais identitários, numa apontada de dedo oposicional, conceitos e estudos sobre a branquitude, heterossexualidade e cisgeneridade. Porque o homem cis, branco e hétero também tem uma raça, uma orientação e uma identidade de gênero, mas, por não se perceber como tal, desenvolve “ciências” e política sem qualquer preocupação com esses recortes e com a posição precária que ele ocupa como falante. Depois que passei a performar a travestilidade, essas ideias, com as quais já simpatizava, ficaram muito mais claras pra mim. O mundo reage diferente a você a partir da sua posição social, da sua raça, da sua orientação, do seu gênero. Hoje consigo ver pontos cegos (ou ter acesso a capitais socioculturais) que antes simplesmente não era capaz. Não há uma razão universal! A RAZÃO É LOCALIZADA EM CORPOS QUE ESTÃO EM CONSTANTE CONFRONTO.


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GÊNERO E LINGUAGEM: POR QUE FAZ DIFERENÇA SER TRANS* NO PORTUGUÊS OU NO INGLÊS Gênero e linguagem, como puderam perceber as leitorxs mais assíduas, têm tudo a ver. As noções compartilhadas pelo corpo social do que é ser homem e do que é ser mulher são noções de linguagem. Os conceitos são construídos pela troca de sentidos usualmente compartilhados pela sociedade e as identidades trans*, por fugirem desses sentidos hegemônicos, entram num espaço de ininteligibilidade, num espaço abjeto, patológico. Tensionar esse tipo de aproximação entre gênero e linguagem me faz ter reflexões interessantes sobre como identidades trans*, principalmente as não binárias, podem ser construídas discursivamente de maneira diversa a partir do referencial linguístico utilizado. Pensemos, por exemplo, no português (e outras línguas latinas) e em como ele é, em tudo, binário. Até os objetos têm gênero: “o” celular, “a”cadeira, “o” lápis, “a” caneta”, e por aí vai. Quando se parte de uma língua tão binária assim, construir discursivamente uma identidade não binária é um desafio quase insuperável. No fim das contas, você acaba tendo que optar por um gênero ou outro, porque não dá pra obrigar todo mundo a usar construções neutras impronunciáveis (utilizando-se letras não generificadxs, por exemplo). Mas quando se pensa em outras línguas, como o inglês, a construção identitária não binária fica mais crível. No inglês, objetos não têm gênero: “the” cellphone, “the” chair, “the” pencil, “the” pen, etc. Também é possível se referir a pessoas sem generificá-las (utilizando-se o pronome “they”). Com algum esforço, é bem factível a construção de sentenças, e identidades, neutras. Esse tipo de devaneio lombrado me faz pensar em como nossa língua pode experimentar mudanças profundas no futuro se as pautas de gênero (e as trans*, em especial) passarem a ser amplamente discutidas e implementadas. Não acho impossível que, no século XXII ou XXIII, a linguagem (e as pessoas) tenha uma cara bem diferente da atual. A questão trans* é revolucionária, pessoal!


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DEPOIS DA ONDA PESADA, A ONDA ZEN Na sexta-feira, tive uma sessão de terapia diferente. Conclusiva para muitas tretas. Ao comentar em voz alta as questões que nessa semana tinham me assaltado, percebi que eu estava, de forma inconsciente, numa busca incessante por emoção, no estilo living fast, dying young, sabe? Viver no limite e despertar emoções extremas têm sido a minha vida nos últimos meses (ou anos?). Observei que, de certa forma, somente me sentia viva de verdade nos momentos de dor aguda ou de êxtase. Tudo que tava no meio do caminho, a banalidade do dia a dia, parecia morto, sem cor, cinza. A vida pacata e a rotina simplesmente eram chatas demais para mim. Difíceis de suportar. Desinteressantes demais para chamar minha atenção. Quando não tinha me assumido publicamente como Luna, cheguei a viver momentos de vida dupla, em que interpretava um papel de dia e, de noite, outro. Eram saídas de quarta a domingo, que decorriam, no fim das contas, de uma necessidade de expressão. De manifestação de Luna, que agora não precisa mais tanto disso. Percebi que eu estava viciada em emoção. Viciada em testar meus limites. Viciada no martírio. Viciada no embate. Eu literalmente estava numa missão de mudar o mundo em 6 meses, porque ano que vem vou começar uma pós-graduação e não teria tanto tempo assim para fazer isso (olha que pessoa surtada). Perceber isso me trouxe paz imediata. Entender bem nossas questões é o passo mais importante para saber lidar bem com elas. Tenho que voltar a ser a pessoa zen que sempre fui. Voltar a ter prazer no chá da tarde de domingo ou no café da manhã de segunda-feira. Preciso olhar com calma e carinho para mim mesma. Me amar e perceber os meus limites. Preciso, mais uma vez, me reinventar. Ao final da sessão, minha psicanalista disse que iria ter que passar duas semanas fora. Esculhambada que sou, apoiei uma das mãos na parede e corri a outra para meu peito e ela logo caiu na gargalhada. Mas, na real, é que eu acho que vai ficar tudo bem.


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TIRANDO A MÁSCARA: AFETOS, SOLIDÃO, BANHEIROS E OUTRAS PARADAS DE TRAVESTI Preciso escrever sobre o que estou sentindo. Preciso compartilhar esse aperto, porque, quando o faço, é como se a dor se dissipasse entre as minhas e eu deixasse de carregar tudo sozinha. Eu não tô legal e tem muita coisa concorrendo para eu não estar no meu melhor estado. Uma das coisas que tem me quebrado, e não acho seja proibido falar disso, é a solidão. Enquanto homem, branco, hétero, bom partido, gato pra caralho, não tinha noção do que é se sentir só. De não atrair as minas por quem sentia atração. De experimentar a solidão. Como travesti, não devo negar, isso tem sido uma grande questão pra mim. E isso me traz inseguranças que eu não conhecia: Quem iria querer apresentar para a família uma travesti? Quem assumiria um relacionamento com uma travesti? E quando encontro uma gata mais aberta (nas poucas situações em que isso tem rolado), escuto coisas como “eu nunca tinha ficado com alguém como você” (como se eu tivesse ajudado a pessoa a cumprir o check list de coisas para fazer antes dos 30), seguido de um tchau até nunca mais. Ter que me passar de homem cis em alguns ambientes como estratégia de sobrevivência também tem matado meu espírito. Ter que ir ao parque ou à padaria disfarçado de menininho para não apanhar na rua é uma grande violação do meu direito à autodeterminação. Ser tratada como “senhor” ou “moço”, para você que assim se identifica, pode ser considerado algo bobo, mas para mim é um tapa na cara. E o banheiro, gente? Aff... se vou ao banheiro masculino, eu me sinto desconfortável, correndo o risco de ser objeto de piadas e agressão dos macho inseguro. Se eu vou ao banheiro feminino, as minas ficam desconfortáveis (automaticamente fico desconfortável também). Daí nunca sei que banheiro usar. E, seja qual for, eu sei que vai ser uma bosta. Era isso que eu tinha a dizer. Sem grandes reflexões ou mensagens reconfortantes. Estou me encontrando ainda como Luna em termos de afetividade, comportamento e estratégias de sobrevivência. É importante falar dessas paradas. Não há mal em se mostrar vulnerável.


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TRANSFEMINISMO: MEU ENCONTRO COM O NÓS A sensação de estar sozinha contra o mundo é sufocante. Mas estou muito feliz, porque encontrei mais gente trans* pensando as transgeneridades, criticando os equívocos das inimigas e se organizando (ainda que de forma embrionária) como movimento político: é o transfeminismo! Trata-se de um feminismo interseccionado com questões trans*, como tentativa de levantar pautas políticas e superar os equívocos (inclusive de algumas meninas “feministas” cis) essencializantes e biologizantes das identidades de gênero. Tô muito feliz e babando prxs trans* mais experientes e graduadas (pela vida ou pela academia) no blog transfeminismo.com. Ai que encontro! Sinto-me forte! Sinto-me pertencendo a algo, e não mais como um ser isolado no meio de gente cis. EU SOU TRANSFEMINISTA!


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AS IDENTIDADES TRANS SÃO UMA EXCEÇÃO APENAS CONJUNTURAL Leitora cis, tente lembrar de toda a sua educação, da infância à vida adulta. Provavelmente foi educada desde o início a ser delicada, sorridente e bonita. Foi estimulada a ser comunicativa e conciliadora. Foi censurada quando um homem falava. Foi autorizada em determinados espaços, mas em outros não. Durante toda a sua vida, foi bombardeada por expectativas, que tentou cumprir na medida do possível. Daí, num outro texto, a Luna te pergunta: O QUE TE FAZ MULHER? E você, que tem acompanhado meus textos, provavelmente respondeu algo do tipo: ah, a minha identificação com a feminilidade! Mas em que medida a sua identificação com a feminilidade não decorre dos estímulos/pressões externos que você sofreu durante toda a vida? Dito de outro modo: o quanto é possível se identificar com aquilo que não se conheceu ou se experimentou? Você, por um acaso, já performou o masculino para saber se é para você? Você já experimentou aquilo que é “masculino”? A nossa formação, educação, influências e estímulos fazem o que a gente é. Em se tratando de gênero, a gente incorpora os enunciados performativos e reprime impulsos transgressores. Daí as pessoas me perguntam: você sempre soube que era trans ou se descobriu trans? A real é que eu sou uma trans por acidente de percurso. Eu estava cis e agora estou trans. Aqueles impulsos bateram com força e eu tive que me permitir experimentar o feminino e, como minha interação com aquilo que é a masculinidade/feminilidade mudou, isso refletiu na minha identificação social. Percebe como o gênero é frágil e impermanente? É por isso que as identidades trans só são uma exceção conjuntural. É dizer: AS IDENTIDADES TRANS SÃO MINORITÁRIAS EM VIRTUDE DE UMA CULTURA QUE EDUCA CORPOS A VIRAREM GÊNERO. Em um cenário diverso, em que os corpos fêmeas, machos e intersexuais fossem tratados com liberdade, talvez nem mesmo essas expressões (cis e trans) seriam utilizadas. Seríamos pessoas. E pessoas que desenvolvem capacidades e qualidades independentemente do corpo sexual. Confesso que esse é o cenário utópico com que sonho, porque a cisnormatividade é uma ficção limitadora do potencial humano.


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